Entre permanências e reformas: patrimonialismo e neocoronelismo como forças estruturantes do Brasil contemporâneo
DOI:
https://doi.org/10.36557/pbpc.v4i2.375Resumo
Este artigo investiga a persistência do patrimonialismo e do neocoronelismo como forças estruturantes da política e da organização social no Brasil contemporâneo, mesmo após décadas de redemocratização e alternância de governos. A pesquisa adota como referência o Pensamento Social Brasileiro, articulando autores clássicos como Raymundo Faoro, Sérgio Buarque de Holanda e Victor Nunes Leal, com contribuições recentes de Fernando Henrique Cardoso, Zeina Latif, Sérgio Lazzarini e Luís Roberto Barroso. O patrimonialismo é tratado não como anomalia institucional, mas como sistema adaptativo capaz de se reorganizar em ambientes democráticos e tecnocráticos. Já o neocoronelismo é apresentado como atualização urbana e simbólica das práticas clientelistas tradicionais, incorporando o protagonismo de empresários, lideranças religiosas e figuras midiáticas em novos currais eleitorais. A análise identifica três eixos centrais: (i) o patrimonialismo como estrutura histórica e cultural enraizada nas relações sociais; (ii) sua reconfiguração institucional em contextos de alta capacidade técnica, marcada pela captura burocrática e opacidade decisória; e (iii) os desafios da superação reformista dentro dos limites democráticos existentes. A metodologia baseia-se em revisão bibliográfica crítica, análise de discursos públicos e estudo de episódios institucionais que ilustram a adaptabilidade dessas práticas. As considerações finais defendem uma via reformista racional e pragmática, inspirada por pensadores como Fernando Henrique Cardoso, capaz de promover avanços graduais, sem romper com os marcos da institucionalidade republicana. Nesse horizonte, destaca-se o paradoxo entre o tempo lento da reforma e a “era da urgência” das demandas sociais, conforme diagnosticado por Paulo Arantes. O trabalho conclui que reformas sólidas exigem mais do que boa vontade: requerem enfrentamento consciente das estruturas resilientes que moldam o Estado brasileiro desde sua origem.
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