CORPO E CIDADE: A EXPERIÊNCIA FENOMENOLÓGICA DO MEDO, DO DESEJO E DA CIRCULAÇÃO URBANA
DOI:
https://doi.org/10.36557/2674-9432.2026v5n3p1389-1402Resumo
Este artigo investiga a experiência fenomenológica do corpo no espaço urbano, tomando como eixo central a relação entre medo, desejo e circulação na cidade contemporânea. Parte-se da compreensão de que a cidade não pode ser analisada apenas como estrutura física ou sistema funcional, mas como um campo vivido, no qual o corpo desempenha papel fundamental na produção e interpretação do espaço. A fundamentação teórica articula a fenomenologia de Maurice Merleau-Ponty, especialmente a noção de corpo vivido, com a geografia humanista de Yi-Fu Tuan e Edward Relph, incorporando ainda contribuições críticas de Henri Lefebvre, Michel Foucault, Michel de Certeau e Zygmunt Bauman, entre outros autores que permitem compreender as dimensões simbólicas, políticas e afetivas do espaço urbano. Metodologicamente, a pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza teórico-analítica, baseada na articulação crítica de diferentes matrizes do pensamento geográfico e filosófico, sem a realização de trabalho de campo empírico. A análise evidencia que a circulação urbana não se reduz a deslocamentos físicos, mas constitui uma prática corporal atravessada por afetos, sensorialidades e condicionantes sociais. Nesse sentido, medo e desejo operam como vetores simultâneos que orientam, limitam ou potencializam os movimentos dos sujeitos na cidade, contribuindo para a produção desigual do espaço urbano. Os resultados indicam que o corpo se configura como lócus privilegiado de inscrição das tensões da cidade contemporânea, revelando processos de controle, vigilância e segregação, mas também práticas de resistência e reinvenção cotidiana. A circulação, portanto, emerge como uma negociação contínua entre forças que restringem e impulsionam o movimento, evidenciando que o espaço urbano é constantemente produzido pelas experiências corporais. Conclui-se que compreender a cidade a partir do corpo permite evidenciar dimensões frequentemente negligenciadas pela geografia tradicional, contribuindo para uma leitura mais sensível, crítica e complexa das dinâmicas urbanas. Além disso, a abordagem adotada permite ampliar o debate sobre o direito à cidade, evidenciando como as experiências corporais revelam desigualdades na apropriação do espaço urbano. Ao enfatizar a centralidade do corpo, o estudo contribui para reflexões que articulam sensibilidade, poder e práticas espaciais no cotidiano urbano contemporâneo.
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