VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA E SAÚDE MENTAL DA MULHER: REPERCUSSÕES BIOPSICOSSOCIAIS E DESAFIOS PARA A HUMANIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA

Autores

DOI:

https://doi.org/10.36557/2674-9432.2026v5n6p523-553

Palavras-chave:

Violência Obstétrica. Saúde Mental. Saúde da Mulher. Parto Humanizado. Assistência Obstétrica.

Resumo

A violência obstétrica constitui importante problema relacionado à qualidade da assistência à saúde da mulher e pode ocorrer durante o pré-natal, trabalho de parto, parto, puerpério e situações de abortamento, manifestando-se por meio de práticas desrespeitosas, abusivas, coercitivas, discriminatórias ou realizadas sem adequada informação e consentimento. Além das possíveis repercussões físicas, experiências negativas durante a assistência obstétrica podem produzir impactos psicológicos e sociais capazes de interferir no bem-estar materno, na percepção da experiência do parto, no estabelecimento de vínculos e na adaptação ao puerpério. O presente estudo tem como objetivo analisar as repercussões biopsicossociais da violência obstétrica sobre a saúde mental da mulher e discutir os principais desafios para a consolidação de uma assistência obstétrica humanizada, ética e baseada em evidências. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, fundamentada em produções científicas nacionais e internacionais e documentos institucionais relacionados à violência obstétrica, desrespeito e abuso na assistência ao parto, saúde mental materna e humanização do cuidado. As evidências demonstram que experiências caracterizadas por perda de autonomia, comunicação inadequada, procedimentos sem consentimento, negligência, humilhação, discriminação e intervenções realizadas sem indicação clínica ou esclarecimento adequado podem contribuir para uma percepção traumática da assistência. Entre as possíveis repercussões psicológicas encontram-se sintomas de ansiedade, depressão, medo, culpa, impotência, sofrimento emocional e sintomas relacionados ao transtorno de estresse pós-traumático após o parto. No âmbito social e relacional, experiências negativas podem repercutir na confiança nos serviços de saúde, nas relações familiares, na vivência da maternidade e na disposição para futuras gestações. Conclui-se que o enfrentamento da violência obstétrica exige abordagem interdisciplinar e sistêmica, envolvendo qualificação profissional, comunicação efetiva, consentimento informado, respeito às escolhas da mulher, práticas baseadas em evidências e fortalecimento das políticas de humanização. A assistência obstétrica centrada na mulher deve reconhecer autonomia, dignidade e saúde mental como componentes indissociáveis da qualidade e segurança do cuidado materno.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

AYERS, Susan; BOND, Rod; BERTULLIES, Susanne; WIJMA, Klaas. The aetiology of post-traumatic stress following childbirth: a meta-analysis and theoretical framework. Psychological Medicine, v. 46, n. 6, p. 1121-1134, 2016. DOI: 10.1017/S0033291715002706. Disponível em: Cambridge University Press – artigo. Acesso em: 09 ago. 2026.

BOHREN, Meghan A. et al. The mistreatment of women during childbirth in health facilities globally: a mixed-methods systematic review. PLoS Medicine, v. 12, n. 6, e1001847, 2015. DOI: 10.1371/journal.pmed.1001847. Disponível em: DOI – PLoS Medicine. Acesso em: 09 ago. 2026.

BRASIL. Lei nº 11.108, de 7 de abril de 2005. Altera a Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990, para garantir às parturientes o direito à presença de acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato, no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS. Brasília, DF: Presidência da República, 2005. Disponível em: Presidência da República – Lei nº 11.108/2005. Acesso em: 09 ago. 2026.

CONCEIÇÃO, Haylane Nunes da; GONÇALVES, Claudio Fernando Gomes; MASCARENHAS, Márcio Dênis Medeiros; RODRIGUES, Malvina Thaís Pacheco; MADEIRO, Alberto Pereira. Disrespect and abuse during childbirth and postpartum depression: a scoping review. Cadernos de Saúde Pública, v. 39, n. 5, e00236922, 2023. DOI: 10.1590/0102-311XPT236922. Disponível em: DOI – Cadernos de Saúde Pública. Acesso em: 09 ago. 2026.

CONCEIÇÃO, Haylane Nunes da; MADEIRO, Alberto Pereira. Associação entre desrespeito e abuso durante o parto e o risco de depressão pós-parto: estudo transversal. Cadernos de Saúde Pública, v. 40, n. 8, e00008024, 2024. DOI: 10.1590/0102-311XPT008024. Disponível em: DOI – Cadernos de Saúde Pública. Acesso em: 09 ago. 2026.

HABIB, Helen H.; MWAISAKA, Jefferson; TORPEY, Kwasi; MAYA, Ernest Tei; ANKOMAH, Augustine. Are respectful maternity care interventions effective in reducing intrapartum mistreatment against adolescents? A systematic review. Frontiers in Global Women's Health, v. 4, 1048441, 2023. DOI: 10.3389/fgwh.2023.1048441. Disponível em: DOI – Frontiers in Global Women's Health. Acesso em: 09 ago. 2026.

LEITE, Tatiana Henriques; PEREIRA, Ana Paula Esteves; LEAL, Maria do Carmo; SILVA, Antônio Augusto Moura da. Disrespect and abuse towards women during childbirth and postpartum depression: findings from Birth in Brazil Study. Journal of Affective Disorders, v. 273, p. 391-401, 2020. DOI: 10.1016/j.jad.2020.04.052. Disponível em: DOI – Journal of Affective Disorders. Acesso em: 09 ago. 2026.

LEITE, Tatiana Henriques et al. The association between mistreatment of women during childbirth and postnatal maternal and child health care: findings from “Birth in Brazil”. Women and Birth, v. 35, n. 1, p. e28-e40, 2022. DOI: 10.1016/j.wombi.2021.02.006. Disponível em: PubMed – artigo. Acesso em: 09 ago. 2026.

LEITE, Tatiana Henriques et al. The effect of obstetric violence during childbirth on breastfeeding: findings from a perinatal cohort “Birth in Brazil”. The Lancet Regional Health – Americas, v. 19, 100438, 2023. DOI: 10.1016/j.lana.2023.100438. Disponível em: DOI – The Lancet Regional Health – Americas. Acesso em: 09 ago. 2026.

MARTINEZ-VÁZQUEZ, Sergio; RODRÍGUEZ-ALMAGRO, Julián; HERNÁNDEZ-MARTÍNEZ, Antonio; MARTÍNEZ-GALIANO, Juan Miguel. Factors associated with postpartum post-traumatic stress disorder (PTSD) following obstetric violence: a cross-sectional study. Journal of Personalized Medicine, v. 11, n. 5, art. 338, 2021. DOI: 10.3390/jpm11050338. Disponível em: Journal of Personalized Medicine – artigo completo. Acesso em: 09 ago. 2026.

ORTIZ-ESQUINAS, Inmaculada et al. Perception of obstetric violence and risk of post-traumatic stress disorder at 6 months postpartum: an observational study. Frontiers in Psychology, v. 16, 1712911, 2025. DOI: 10.3389/fpsyg.2025.1712911. Disponível em: DOI – Frontiers in Psychology. Acesso em: 09 ago. 2026.

PAIZ, Janini Cristina et al. Association between mistreatment of women during childbirth and symptoms suggestive of postpartum depression. BMC Pregnancy and Childbirth, v. 22, art. 664, 2022. DOI: 10.1186/s12884-022-04978-4. Disponível em: DOI – BMC Pregnancy and Childbirth. Acesso em: 09 ago. 2026.

SILVA, Júlia Carla Oliveira et al. A systematic review of the prevalence and types of obstetric violence on the health and well-being of women in Brazil. Research, Society and Development, v. 12, n. 5, e8212541526, 2023. DOI: 10.33448/rsd-v12i5.41526. Disponível em: DOI – Research, Society and Development. Acesso em: 09 ago. 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. The prevention and elimination of disrespect and abuse during facility-based childbirth. Geneva: World Health Organization, 2014. Disponível em: World Health Organization – documento oficial. Acesso em: 09 ago. 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience. Geneva: World Health Organization, 2018. ISBN 978-92-4-155021-5. Disponível em: World Health Organization – recomendações para assistência intraparto. Acesso em: 09 ago. 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO labour care guide: user's manual. Geneva: World Health Organization, 2021. ISBN 978-92-4-001756-6. Disponível em: World Health Organization – Labour Care Guide. Acesso em: 09 ago. 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Compendium on respectful maternal and newborn care. Geneva: World Health Organization, 2025. ISBN 978-92-4-011093-9. Disponível em: World Health Organization – Compendium on Respectful Maternal and Newborn Care. Acesso em: 09 ago. 2026.

Downloads

Publicado

2026-08-11

Como Citar

FERREIRA , Rossibel Cavalcante Lobato et al. VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA E SAÚDE MENTAL DA MULHER: REPERCUSSÕES BIOPSICOSSOCIAIS E DESAFIOS PARA A HUMANIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA. Periódicos Brasil. Pesquisa Científica, Macapá, Brasil, v. 5, n. 6, p. 523–553, 2026. DOI: 10.36557/2674-9432.2026v5n6p523-553. Disponível em: https://periodicosbrasil.emnuvens.com.br/revista/article/view/1401. Acesso em: 17 ago. 2026.